[Verano Feminista Literario] Arando estorvos y otros poemas

Imagen: Pinterest

Por Júlia Vita

 

Arando estorvos

veio em grão de chuva em luz
arado de meu desaconchego
umidade descompacta junto
escorro

ninguém me encontra pois então
sou muitas
faço justa falta de foco
sem que a digam falha
agora que não acham nem a quem
dizê-la – levaria esforço

não perderiam tempo com estas
que me tornei ervas
muito mais
daninhas
eras

 

Benza

Azedeira!, flor vermelhada
vivaz, vivaz
persistência terrárea

Nesse barro ainda dá pé
plantação de infância suja
à calçar melão de bucha

Não é de bênção
a canção – é benzedeira
de cascar, trepação e
aroeira.

 

Flores àbertas e margaridas

Frágil no soy sola
Raíz daqui salva além
do nosso solo
Quando brava, saia
cuida-te o encosto

Não mais nos despunhem de mãos
a enxada
Não mais o direito
de nos inchar
após o rosto

Faltou – não mais
La Esperanza em la terra além mar
flores àbertas do ingazeiro a Intibucá

Margarida perpétua teu
suspiro roxo
Rama pubescente alastra em nós
galhagens sobreviventes.

Imagen: Pinterest

Minhas fendas

Haja vista que pudesse ser eterna onze horas
ao tempo expectado cumprindo movimentação
que não mais quis:
cápsula, se origina de ovários
abrindo-se por mais de duas fendas

Uruculminei melhor deste modo em vários,
do que em um apenas.

Arbusta, raiz-preta
caninana
mordidas desfeitas, viro casca até veneno
posso com meus dedos amargos
fazê-los ácidos
de mais fendas!, minhas fendas –
viva e morra.

 

Nenhuma amena

Um pano de chão

com o peso do molhado:

assim eu me sentira

 

Hoje acordei pensando solitária

quem mais me torturou

Eles me apertavam e eu me retorcia

Eles na torcida de que eu nao suportasse

um só mais golpe repuxado

Quando pensavam ao máximo me terem definhado

Quando pensavam ao máximo meterem esticado

eu resistia

Deslizava macia,

flanava no vento e pousava no chão

flanela pronta para reabsorver

as lágrimas algodão

 

Abraço-os por me torcerem

de uma vez só.

úmida do passado

apesar de despesada,

 

Continuo limpando a nós outras

a sujeira que deles desaba.

 

-em memória e presença de Lucía Perez

 

Ni la tierra ni las mujeres

Por ser território de conquista
de riqueza exploração
afetiva
segurar no lombo o choro de quando a vida chove sendo dia e também morte
Levantar grão em encosta acimentada contendo
nossa história em comum do início ao agora
Não me encosta
é tóxico o chão da gente
forçada a esquecer o que é amar até
Pelo silêncio dos homens
que diziam amar a terra.

 

 

Más sobre Júlia Vita

mini-bio:
Júlia Vita nasceu em Niterói, Brasil. É artista e poeta, tendo como ponto forte em sua obra densidades enquanto corpo feminino,
político, pensante, latinoamericano e animal. Seus textos podem ser lidos no blog Versoando (versoando.wordpress.com)

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